Sunday, December 10, 2006

Síndrome de Chronos

Vou correndo em direção ao mar, os ventos parecem não mais me julgar, não como antes, o mar está calmo como eu nunca havia visto. Tento correr antes que a idade se agarre ao meu desejo de viver, e me entrelace tanto a ponto de eu nem fazer questão de me conhecer. Quando criança tudo parecia mais fácil, talvez por isso todos sempre pensem que suas infâncias foram os melhores tempos de suas vidas, afinal, era tudo imaginário, o Mickey sempre se saia bem, o Peter pan nunca perdia do capitão gancho, a policia ajudava senhoras de idade a atravessar a rua. E assim criaram um paradigma que vivencio hoje: Quando adolescente, sempre querendo ser adulto e quando adulto sempre querendo ser criança novamente.

A cada segundo parece que tudo vai se acumulando ao lado de nossos pés, a cada minuto um novo obstáculo, a cada hora um novo pensamento no encalço de nossas mentes já tão frágeis e calejadas pela crescente necessidade de ser mais a cada centímetro ganho na estatura, a cada ano ganho em meio a velas acesas, a cada passo dado através de livros e estudos, a cada número que nos dão no colégio supostamente aumenta nosso conhecimento, a vida e outras experiências, ao menos é isso que nos dizem.

Tudo definhando como aquela arvore que ficava no meu quintal, cadeados fechavam a porta de madeira que ficou tanto tempo intacta, mas agora foi aberta e as coisas andam mais rápido. E nessa desconcertante velocidade eu me vi cheio de recordações, parece-me que tudo correu mais rápido que aquela cachoeira e as recordações escorrem sobre mim como água, às vezes reconfortante, às vezes de modo desagradável. Elas se fazem tão frias e intocáveis que chegam a dar agonia certas vezes, e pensar no que fomos antes e no que viramos depois, a saudade nos arranha, o medo nos assola, o desejo que nos impulsionava ficou perdido em meio à bagunça do meu quarto que nunca me preocupei em arrumar.

E se eu simplesmente deitar aqui e esquecer o mundo por um tempo? Como seria tudo se parássemos pra raciocinar e vivermos o momento com clareza? Deite-se, esqueça o que você usava no dia anterior, esqueça o que você leu como sendo um certo tipo de verdade incondicional , crie sua própria verdade de como tudo deveria seguir, de como os caminhos deveriam se cruzar, retire seu vagão de perto dos outros nessa rodovia intransitável, descarrilhe-o escorregando-o por entre os trilhos de modo abrupto e sem almejar nada, mude tudo pra melhor como você achava que seria a essa altura de sua vida. Apenas imagine e se prepare pra ter a ciência de que a realidade sempre tende a quebrar o nariz da ficção.

E você não conheceu os caminhos que lhe pareciam acabar sem aquela exatidão que você necessitava, veja todas aquelas pessoas que buscaram a estabilidade junto com você, elas parecem felizes? Por que você não tenta algo dessemelhante ao normal? Difícil admitir algo quando te falam pra não falar nada que te torne menor e sim àquilo que te enobrece aos olhos de todos, mas ao menos diga a ela o que você sente, não pense como você vai ficar refém de todas as futuras situações, tente agir pensando no seu bem estar, mas lembre-se de não confrontar seu bem estar com o de outros, retire esse peso de suas costas, não posso te garantir que tudo vai melhorar, mas posso te dizer que tudo pode mudar de ângulo pra algo que jamais lhe ocorreu, nem nos dias em que você esteve mais pensativo.

E digo-lhe que o melhor remédio que poderá tomar é um diálogo olho a olho, com a sinceridade da lágrima, a clareza no grito, o sentimento esbanjado, transbordado e cativo, combatido a unhas e dentes, transformado dentro de você por medo de expor, vergonha ou qualquer coisa que o valha, mas você tem toda a capacidade de expressá-lo ao invés de usá-lo pra se envenenar ou engasgar, ou pra se fazer de menor, pra ser digno de pena, como ando te vendo fazer. Pegue ele ai, coloque-o em miúdos olhe bem nos olhos dele, deixe a lágrima cair, explore a emoção que você observar nos olhos dele, e ai PA - pum perdeu o poder. Ficção se une a realidade, onde abismos são criados.

Por Breno e Cadu Tenorio

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